Domingo, Agosto 31, 2003
CAFÉ-COM-LEITE
Quem nasceu nos anos oitenta põe o dedo aqui que já vai fechar abacaxi pode comemorar. Estão dizendo por aí que foram os últimos a ter uma infância feliz. Aí, penso eu, depende do que você considera feliz, mas uma coisa eu garanto: éramos bem mais criativos.
A pirralhada de hoje em dia não faz nada além de passar horas e horas em frente ao computador. Quando cansam ¿ embora Dra. Débora de Paula Soares questione o fato ¿ a solução é passar o tempo com videogames, DVDs ou assistir desenhos animados em que o mal ganha. É!!!!!!! o mal ganha!!! Agora, pergunto: onde está o lema básico infantil de que ¿o bem sempre vence no final¿ ? Revoltante...
As crianças ¿ ou como elas sugerem ¿ os pré-adolescentes de 7 anos de idade ¿ exigem roupas sem ursinhos, sem qualquer referência à algum ¿bichinho¿ em especial. Isso quando não escolhem a marca A ou B. Socorro! Desde quando o mundo de etiquetas e preços exorbitantes faz parte da realidade infantil?
Eu confesso que fui uma criança estranha. Isso nem tem como esconder porque muita gente teve a infelicidade de conviver comigo nessa época hahaha... Também sei que eu era uma criança criativa demais. Provavelmente porque eu já era pessimamente horrível em todos os esportes ou brincadeiras que exigiam algum movimento. Eu sempre era a primeira a ser ¿colada¿ e nunca jogava caçador. A frase: ¿a Danielle é café-com-leite¿ eu ouvia todo santo dia. Até que eu mesma comecei a gritar ¿eu sou café-com-lei-teeeee!¿. Isso porque um dia eu perguntei: ¿mas que que é isso?¿ e a resposta foi: ¿é a melhor, ué!¿ . Amigos, muito do que eu sou hoje eu devo a vocês... Sem falar do trauma de sobrar sempre na escolha dos times e, nem assim, ser aceita: ¿A gente fica com um a menos, profe, não tem problema¿ ... A professora obrigando o time a me aceitar enquanto eu dava pulinhos gritando sou café-com-leite, vc não é-é! (...)
Ou seja, o fato de ser uma aberração no exigia o mínimo de esforço físico é uma das explicações do meu hiper super ultra mega desenvolvimento intelectual. Mas meus coleguinhas, pelo que lembro, também tinham brincadeiras inventadas por eles. Claramente não tão criativas, trabalhosas e inteligentes como as minhas, mas tinham! E as crianças atuais não têm!!! Não inventam nada!!! São sedentárias e sem criatividade!!! No máximo sabem reproduzir uma ou outra brincadeira que ensinaram a elas, mas nunca criar o seu próprio jogo, gincana, teatrinho, ou baile da barbie. Uma tristeza... tsc tsc
Esse post é dedicado à minha prima Raquel. Estávamos a lembrar de como eu conseguia ser ainda mais idiota quando era criança. A propósito, leiam no Pinocitose o comentário - Velha Infância ¿ sobre as músicas infantis. Aliás, mais uns pra lista de Traumas de Danielle Leal: eu cantava: se essa rua, se essa rua fosse minha eu mandava, eu mandava ela brilhar (ladrilhar) com pedrinhas.... e dona xica-ca dimirouce-ce (adimirou-se) doberrô, doberrô (do berro) que o gato deu... Pois é...
Quinta-feira, Agosto 28, 2003
EU TENHO QUE CONTAR ISSO
Se você já leu o meu perfil, encontrou sincose vaso-vagal e provavelmente isso pra você não significou nada. Agora, se você me conhece sabe que eu tenho chiqueliques nervosos quando ouço falar de sangue, agulha e afins. Os sintomas da frescurice são queda brusca de pressão, falta de ar, mãos geladas, nuca quente, dor de cabeça, pernas e braços moles, tontura e possível desmaio. Não existe remédio. Nenhum sermão até hoje resolveu. E eu continuo passando vergonha em aulas de biologia.
Daí surgem as hipóteses que tentam justificar o que não tem justificativa. Uma delas seria um suposto trauma, devido a meningite que tive aos quatro anos de idade e que não me lembro. Segundo relatam: as enfermeiras eram umas bruxas e além do exame típico na medula, tiraram sangue da perna e do pescoço coisas assim. É, talvez tenha uma relação. Mas como não me lembro de nada disso, eu não costumo dar credibilidade a relação entre essa doença na infância e os shows neuróticos de sempre.
Por que você tá contando isso? Não quero saber! É que a viagem de formatura é pra Bonito. Eu já conheço o lugar, não estou animada pra ir, mas vou. Ou ia. Alguns dias antes eu recebo a notícia de que tem que tomar vacina. O que? É brincadeira, né? Repetia aos prantos. Tá, não era. E eu, claro, prefiro mil vezes morrer de febre amarela do que tomar a bendita vacina. No dia da vacinação primeiro eu fugi hahaha mas depois eu fui bombardeada por pensamentos encorajadores. Afinal, eu sou obrigada a conviver, não tem nada que eu possa fazer. E eu já tava de saco cheio com tudo isso e resolvi acabar com essa situação de uma vez por todas. E desci até a salinha da tortura. Claro, parei no caminho trocentas vezes e a cada passo pra frente eu dava cinco pra trás e teve uma hora que eu comecei o chorar ...
Enfim, eu nunca iria chegar até lá se não fosse a minha super força de vontade e coragem interior. E minha querida amiga Karen sempre a me olhar com aquela cara de: pare senão eu vou te bater hahaha e a básica pressão do colégio inteiro. Mas pra resumir a história eu fui até lá. Morrendo, mas fui. Faltava apenas eu e o Miguel e, pra inveja geral da nação, acabaram as vacinas!!!! Iupi!!!!! hahahaha Eu: noooooossa obrigada, meu Deus, obrigada! Ele: graças a Deus, não agüentava mais me benzer! Karen: o que? não acredito! não pode ser! Danielle, volte aqui! Arrumem mais! Tanto trabalho pra nada... Ai que ódio!
E assim termina mais um dia de vacinação escolar para viagens de formatura. E todos viveram felizes para sempre. Todos: eu o Miguel!
O QUE O TERCEIRÃO PODE FAZER COM UMA PESSOA
Esses dias eu fui ligar pra minha casa e não tava conseguindo. Não, não estava ocupado ou coisa parecida. Eu não lembrava o número mesmo. E isso é muito triste, porque eu era a lista telefônica em pessoa. Agora eu tenho que procurar o telefone das pessoas na agenda, só que ops eu nunca tive uma.
O famoso branco era uma coisa que não existia. Hoje é meu fiel companheiro de todas as horas. Em prova então, uma beleza! Me deparo com situações do tipo: abrir a gaveta pra pegar uma colher pra mexer o nescau, esquecer completamente o que eu queria pegar e ir embora. É, deixando a gaveta aberta, o nescau intacto em cima da mesa e fazendo um esforço enorme pra tentar me lembrar como eu fui parar na cozinha.
Lembrar o que comeu no almoço ou o que sonhou são tarefas quase impossíveis. Uma outra coisa que está acontecendo muito também é esquecer palavras. Palavras super simples. No meio da frase eu esqueço e não consigo continuar. Ou então falo uma outra totalmente sem sentido ou invento uma... terrível! Pior é dizer que a batata-doce é uma raiz tuberculosa (tuberosa) ou ainda que o sistema digestivo faz movimentos pélvicos (peristálticos)... Onde foram parar meu rico vocabulário e minha invejável memória?
Domingo, Agosto 24, 2003
Comentando o comentário de eu... :
Sim, claramente, esse "blog" leva a pseudo-auto-tratamentos, senão para todos, pelo menos pra mim. Entretanto, até agora, estava evitando falar de felicidade. Inutilmente, é claro. Pois bem, andei pensando nesses últimos 17 anos e lamentavelmente a felicidade pra mim continua sendo uma incógnita e pior: estou longe de chegar ao resultado final. É possível que o peixe maior não exista mesmo. E se for verdade, idiotas de nós gaivotas procurá-lo e almejá-lo eternamente. Por instinto. Por burrice. Ou pelo fato de ter consciência de si só que de forma extremamente vaidosa. Necessitamos da felicidade. Da ilusão de felicidade. Do projeto: eu feliz. É a justificativa da existência. Mas o que tem me enlouquecido é o fato de TER que ser a melhor gaivota. Quem começou com isso de que ser feliz é ser melhor? Ser melhor no que? E de quem? Eu não quero ser melhor que ninguém. Eu não agüento mais ter de ser comparada, analisada e fazer parte de expectativas e verdades sociais que não são minhas. O que eu percebo é reina uma imagem de felicidade relacionada à adaptação ao sistema. Só que pode não ser isso. E há grandes probabilidades de que realmente não seja. E mesmo que seja, parece-me que não a mim. Mas como todo gelo, eu não tenho nada para fazer. Espero então, o momento sublime do derretimento. Feliz ou não.
Sexta-feira, Agosto 22, 2003
Sete de janeiro de 2002.
Para viajar de Rio a São Paulo, há inúmeras maneiras. Carro, caminhão, moto, bicicleta, trem, cavalo, pé... E é aí, na escolha do meio de transporte, que começa o filme de terror. Por falar em terror, os mais atentos talvez já tenham notado, pela data, a proximidade dos atentados, Bin Laden e toda aquela coisa que daria um outro post. Er, que proximidade o que? Meses depois... Acorde, pessoa! Estamos falando de mim! Isto é, eu ainda sonhava com o acontecido e a cada cinco minutos olhava pra cima e me desesperava com qualquer fumacinha de chaminé. Mas isso não é o assunto central. Voltemos a ele. Como o carro estava em São Paulo e um dia antes nós já havíamos estado algo em torno de 17 horas dentro de um ônibus, a opção para o trajeto foi isso-mesmo-que-você-está-pensando. Eu, cansada, estressada, um trapinho de gente em decomposição não estava achando a idéia nada má. Em quarenta minutos estaremos lá. Ótimo, pensei. E por alguns instantes um certo otimismo aflorou em minha alma. Ou seja, claramente (ai ai é a convivência...) não ia dar em boa coisa. Isso porque se eu estou achando que não-sei-o-que vai dar certo, pode apostar que vai dar errado. Pois é. Foi só chegar no aeroporto e eu já estava mudando de opinião. E se tiver uma bomba? E se o piloto dormir - e o co-piloto também? E se um outro desse bater na gente? E se falhar o motor? E se explodir? Calma, Danielle! Chega de e se e se e se... Percebendo quão idiota estava sendo com essas suposições, mudei completamente de comportamento: essa merda vai cair! Aquele é o terrorista, olhe só aquela mala suspeita... Bom, resumindo, não saia nada de esperançoso da minha mente. Mas, entre uma previsão de fatalidade e outra, eu me divertia vendo as pessoas apressadas, as lojas às moscas, alguns lendo um jornal, alguns segurando um jornal, alguns querendo um jornal, as crianças pedindo coca-cola (impressionante como basta passar por uma daquelas máquinas - aquelas de ponha o dinheiro, aperte o botão e espere ansiosamente a sua latinha que óbvio virá, mas que sempre demora e você acha que o seu dinheiro vai ficar preso - pra ficar morrendo de sede), por que a roupinha das moças do balcão combina com o balcão? E por que eu ficava procurando alguém famoso? E pescoçando todas as conversas ao redor e fazendo um esforço sobrenatural pra entender devido ao inconfundível sotaque? E por que eu estou contando essas coisas em vez de me concentrar e terminar duma vez essa história sobre o que mesmo que ela é? Ah sim! Continuando... O desespero foi quando a moça ainda digitando e sem tirar os olhos do computador começou a falar que havia lugar num outro vôo e que este partiria já e blábláblá. Ui. Eu gelei. O que está acontecendo, pai, o que? Danielle, só um pouco. Mas por que isso, o nosso é depois, por que a gente vai ter que ir agora e... Danielle, cala boca. Cala boca você, piá, que eu to falando com o pai... Uma pequena discussão familiar começa. Seguida de uns chutinhos e lógico, de uma bronca de mãe constrangida com a atitude "das crianças" e que daí chama mais a atenção ainda justificando a cena injustificável em tom bem acima do normal pra que todo o aeroporto possa ouvir. Todos querem ir agora? Não, eu não quero! Se todos querem, então vamos. Eu disse que eu não quero!!!!!! Vamos nesse, moça. E assim foi. Saímos apressadamente até o portão de embarque e no meio da correria eu não conseguia pensar em nada. É que às vezes, quando eu fico muito nervosa, eu travo. Pareço uma estátua parada em repouso. Então eu fui. Fui indo. E quando dei por mim eu já estava lá. Lá dentro do veículo alado. Eu olhava para os passageiros. Todos suspeitos. E tudo parecia tão frágil. Sentei. Lembrava apenas de um texto da quarta-série que dizia que era maior o número de mortes por coice que por acidente de (arg) avião. Mas, seguro morreu de velho. Enquanto todos escolhiam os melhores lugares, acomodavam as bagagens de mão, coisas do tipo, eu apertei bem o cinto e debulhei todo o manual de segurança umas vinte mil vezes. Minutos depois descobri que falavam sobre isso e tal, mas não se iluda, o manual é bem mais completo que as informações básicas do alto falante. Respirei fundo. Sorri. Nisso, meu pai sentou-se ao meu lado. E sorriu também. Na verdade, gargalhou porque eu estava abraçada com o manual de segurança, amassando-o até. Começou a se mexer. Valhamedeus! Eu segurei forte na poltrona. Ai que exagero, pensei. Super tranqüilo, até. É tipo um carro só que grande e tal. Ele terminou de dar a volta e parou. Agora vai levantar vôo, disse Senhor Leal. Então... Imagine uma borboleta tomando delicadamente seu mini empulcinho pra voar. Ou Peter Pan. Bom, qualquer que fosse meu esteriótipo de levantar vôo, definitivamente não tinha nada a ver com avião. Bom, eu já fico nervosa quando o carro chega a cem por hora. Cento e vinte eu já tô gritando. Bem, o avião acelerou meio assim como eu posso dizer: de repente e rápido como um como um como um avião. Tá, eu comecei a chorar. E, não sei porque, todos começaram a rir. Acho que eu dizia alguma coisa do estilo: Não gostei!!!! Quero sair!!!! Escândalos a parte estava tudo bem. Eu evitava olhar pela janela. E a cada dois minutos mais ou menos eu lembrava que tinha que respirar. Foi aí que eu vi uns pedaços da asa levantando. E comecei: AAAAA a asa tá podre!!!! Olhem, tá se soltando!!!! Enquanto explicavam pra anta aqui que aquilo era absolutamente normal, todas as pessoas me olhavam como se eu fosse um et. Daí, o tempo foi passando... nada de bombas... nada de avião cair... Eu me acalmei. Nem era tão ruim assim. Depois disso só teve o incidente da turbulência. O que? Ah... nada de mais. Tudo bem, é o seguinte: eu achava que você tremia. É, você, a pessoa. Como naquelas cadeiras de parque temático. Mas, óbvio, é o avião todo que balança de um lado pro outro. Foi horrível, nessa hora eu me desesperei mesmo. Logo em seguida chegou o lanche - santo remédio. Comida é algo importante na minha vida. Ocupou todas as minhas atenções. Para o alívio dos passageiros e das aeromoças também que só faltavam me bater. Agora, um dos maiores medos de toda a minha vida foi no pouso. Deus meu. Não gosto nem de lembrar. Eu tinha tanta, mais tanta certeza que ia explodir, que depois de já no chão eu ainda olhava em volta procurando o fogo e os destroços do avião. Depois de um tempo, como eu não achei nada, eu conclui que não tinha explodido e que eu ainda estava viva. Sua vaca, fez eu ler tudo isso pra nada? Não, né?! Tudo isso foi pra você perceber que eu nunca mais vou andar - voar - de avião na vida!!!! E que agora, graças a minha queridíssima amiga Adriana - grande, alta e uma coca - que se lembrou da minha aerofobia, eu tenho um manual de segurança só meu! É sério! Verdade, verdadeira! Ela roubou especialmente pra mim! Guria!!! Muito, muito obrigada! Agora eu posso ficar treinando todas as posições de queda, quantos vezes eu quiser e sem aquela trilha sonora de ha-ha-has!!!! Detalhe: é lindo! Laranja cheguei! Totalmente ilustrado! Dá até vontade de voar de avião... ai ai
Quarta-feira, Agosto 20, 2003
Estava escrito. Onde? Pelo visto, não interessa. Acredito que porque a própria crença no fatalismo sugere esse pouco refletir. Vem carregada de abandono, de acomodação. Mas, penso, não seria então a condenação do homem? A prisão e o consentimento de seu fracasso e inutilidade? O mesmo homem ao entregar o controle de tudo ao então suposto destino, torna-se imediatamente preso a ele. E ainda: livre de si. Se afinal tudo já está planejado e longe de nossa intervenção, qual é a responsabilidade que se atribui aos atos humanos? Exatamente, nenhuma. Trata-se, pois, de uma mera desculpa. Título de inocência. Remissão dos pecados. Convenhamos, não faz sentido. Somos mais do simples marionetes. Não é possível negar o direito de ir e vir. De optar pelo que se considera melhor. De tomar decisões. Elas estão presentes a todo instante. Eterna perseguição. Basta, então, assumir que aquilo que somos depende exclusivamente de nós - nossas decisões - diante de certas circunstâncias pré-existentes, estas sim, fora do nosso alcance de intervenção. Mas, é bom lembrar que embora muitas coisas já foram feitas sem nossa consulta ou mesmo sem a necessidade de nossa existência, não estamos condicionados a aceitá-las. Mesmo que não possam ser feitas mudanças, podemos exercer nossa liberdade ao tomar frente de uma opinião contra ou favorável. É indiscutível que assim se faça. Que se saia de cima do muro. Que elogie ou critique. Que proteja ou transforme. Afinal, somos livres. E devemos agir como tal. Estando cientes de que tudo o que fazemos vem carregado de causa e efeito. Mas que não somos obrigados a fazer. E que há vários caminhos a serem percorridos. Escolha um. O que tiver de ser, será.
A concepção de mundo é, por si só, um evoluir complicado e assustador. Muito lento e cheio de círculos. O que se diria então da concepção não de mundo, mas de mundos? Nesse instante muitos diriam: que mundos? Você está afirmando a existência de mais de um único mundo? Não. Estou sugerindo. E mais: seriam dois, e distintos. O primeiro seria o mundo-real. Para tanto, pressuponho que você realmente exista e que sim, esteja em um mundo, um planeta, um lugar físico. E que interaja com ele e com os demais seres em igual situação. O segundo seria o mundo-projetado. Ou seja, o mundo individual, composto por pensamentos, lembranças, planos, idealizações. Um mundo psicológico, construído ao longo de sua vida e do que você é. Neste, ninguém interfere. Ninguém nem ao menos poderá conhecê-lo ao todo. È só seu. Você, então, seria resultado direto da combinação de ambos. Da adaptação ou rejeição de cada particularidade presente em cada um deles. Suas conquistas ou decepções seriam fruto direto da junção dos dois mundos. A realização - ou não - dos planos. A vivência - ou não - do que se gostaria de viver. Sendo assim, a existência desses mundos paralelos explicaria, pelo menos em parte, grande parte das nossas atitudes. E ainda, proporcionaria uma infinidade de opções, de variadas maneiras de ser e de viver. Abriria portas para um além desconhecido. Secreto. Repleto de mistérios a serem desvendados e questionados. A individualidade intervivenciando como o coletivo. A questão é: se nem conseguimos explorar o mundo real, que se dirá então da concepção do mundo projetado - em constante transformação e de tão poucas certezas? Seria, deste modo, apenas um refúgio isolado. O esconderijo, que embora mude de lugar, você sempre o encontra. Onde você manda. Você entende. Você dita as regras. E as veta. Você é feliz. Ou imagina que é.
Terça-feira, Agosto 19, 2003
Certamente, dentre todas as possíveis crises, a mais difícil é a crise de identidade. Crises amorosas são superadas assim que outra pessoa passa a ocupar o lugar da então alma gêmia e amor de sua vida. Crises financeiras podem desaparecer ao surgimento de um novo emprego, um aumento, um presente, um bilhete premiado. Crises familiares, assim como as que envolvem amizade, passam ao estágio "inexistentes" com um gesto inesperado, um perdão sincero ou - não podemos desconsiderar - com o rompimento eterno. Este talvez bem doloroso, mas que ficará perdido entre lembranças num passado longínquo... Mas a crise de identidade, essa não. Essa dói. Estilhaça. Mata. Tem o poder - e como o faz com facilidade - de consumir a alma, de arrancar vendas, evaporar sonhos e implantar incertezas. Nem outra pessoa, nem mesmo o tempo, o Senhor das Curas, é capaz de solucionar ou mesmo amenizar tal sofrimento. Concreto, presente, tormento que persegue sua vítima sem dó, a todo e qualquer instante, até o fim. Até a absoluta perda de controle. A perda de si. Não há porquês. Vazio extenso e crescente. Confusões, lamentos, lágrimas sem sal. Penhascos e abismos se misturam nos caminhos tortuosos que já deixaram de existir. Ou que nunca existiram. Ninguém tem o poder ou, pensando melhor, o direito de interferir. Mesmo que quisesse, não o poderia fazer; já que não há como avançar o concreto que recobre uma gélida alma. Em estado de putrefação. Se em algum instante o calor se dissipou e ergueu-se o muro, nada mais pode ser feito... É necessário que a própria alma - e somente ela - desperte da morte. E quando isso ocorrer (se ocorrer) que desabe o muro. E aos poucos, para que não caia sobre ela. Neste processo, sem previsão de duração ou êxito, palpitam sussurros inquietos e gritos sufocados. Ressuscite. E redescubra-se. Ou reconstrua-se. Na incessante, inconstante e perturbadora crise do ciclo de novos eus.
Ódio, raiva, nojo, revolta. Não importa. Chame do que quiser. Isso: do que quiser! Por que? Porque tanto faz! Nem eu sei descrever. O que eu sei? Eu sei que tem momentos (e não são poucos) em que eu tenho vontade de su-mir. De desaparecer, de nem ter nascido. Eu tenho nem sei quantos anos - algo em torno de 17 diriam - e sinto-me como alguém que viveu milênios de infelicidades e frustrações. Pronto, é isso! Eu sou uma pessoa frustrada. Coleciono decepções. Por que? Por que? Ótimo, não sei. Mas uma boa resposta seria: porque eu sou perfeccionista. Tá resolvido então: o mundo não é perfeito. Ah é? E eu com isso? Eu queria que fosse e ponto final. Aliás, não me incomodo que ele não seja. Afinal, nada é perfeito. Deus apenas. Mas continuando: eu não me importo. O que me irrita e me faz sentir isso-que-não-sei-o-que-é é o fato de que ninguém faz algo pra que seja! Como conseguem fingir que está tudo bem? Ou pior: meudeus; será que não conseguem ao menos enxergar isso? Sinceramente, isso me perturba e muito. E ah, como contribui para o meu abismo frustração. Uma: porque não consigo fazer com que vejam isso. Duas: porque não consigo fazer com que vejam isso. Três: porque não consigo sozinha. A questão é: por que não consigo sozinha? Simples: porque eu estou no meio desta prisão! Nem sei como vim parar aqui. Mas eu estou aqui. E não consigo fazer com que vejam isso! Pois bem, tomando-se esta conclusão como verdade é tão, mais tão, fácil transformar o abismo em buraco negro... De que maneira? Pense: Eu não consigo fazer com que vejam isso! Motivo: não querem ver! "Pra que?" Logo, sobro. Só. Nas minhas intermináveis irreais projeções de como deveria ou poderia ser. Mas que não é. Que nunca vai ser. E que eu não consigo fazer que seja. Sendo assim, perco-me em pensamentos e decepciono-me cada vez que desperto. E quando tudo nem vale mais a pena, do meio do nada surge algo. Porque eu sou perfeccionista. E volto a sonhar. E volto a acordar. E cada vez é mais doloroso. E eu não vejo um fim. Nem um começo. E quem sou eu para ver essas coisas e ficar questionando? Quem sou eu para revoltar-me com a podridão fútil e hipócrita em que vivem os homens se eles estão "felizes" nessa novelinha de ibope? Quem sou eu? Pois é, ninguém. Só mais alguém com o seu mundinho. Com uma diferença: o meu não é o mesmo. E eu não consigo fazer com que vejam isso.
Bombas-SC. Nove de janeiro de 2001.
Quem me conhece, ou melhor, quem já teve a oportunidade de estar comigo num lugar praiano, sabe exatamente do que eu estou falando. Tinha tudo pra ser apenas mais um dia tedioso na praia. Mas não foi. Embaixo do guarda-sol, 50 kg de protetor solar pelo corpo, uma cara de sono e muito mau-humor. Levanto-me. Caminho graciosamente em direção ao verde mar. Desvio as bolinhas de frescobol, as crianças chorando, as pranchinhas de isopor que insistem em me perseguir, os velhinhos com a água até o joelho... Superados esses ainda houve as várias tentativas dos meus irmãos de me afogar. Mal sabiam eles que nem seria necessário. Não há nada mais insuportável que ficar pulando onda. Principalmente quando se desfruta da minha altura. Ou seja, depois de horas mergulhando sem parar, é óbvio que eu simplesmente revoltei-me com a situação. E, para o desespero geral da nação, fui inspirada por mais uma das minhas magníficas idéias: "no fundo não tem onda!". Segundos depois já estava eu completamente sem pé. Vendo meu irmão ainda perto, rapidamente gritei: "Juuuuuu!" E, para a minha não-surpresa, vi que ele se afastava na sua pranchinha mostrando-me o dedo do meio. Calma, ainda não era motivo para alarde. Eu estava pronta para agir. Como meu orgulho não permitia que gritasse por socorro - imagine! Que vergonha! - eu passei a tentar nadar. O que em outras palavras significa um-ser-se-debatendo-descoordenadamente. Em termos práticos: eu ia cada vez mais pro fundo. Já ciente da tragédia que ocorreria, passei a lamentar o máximo que podia. Devia aproveitar meus últimos minutos de vida fazendo o que eu sempre fiz de melhor. Reclamar, fazer drama. Imaginar se conseguiria chegar até a África (boiando, claro, porque meus braços já estavam latejando) ou se um tubarão me estraçalharia antes. Em minha mente reinavam, além de trocentas orações, pensamentos como: deixo essa merda de mundo na véspera de completar meus quinze anos... bom, pelo menos não vou ter que ficar decidindo entre viagem ou festa essas coisas... não vou ter que decidir mais nada!...adeus a todos... sentirei saudades... será que eu vou aparecer no jornal?... adeus, planeta, adeus... termina aqui minha vida medríocre e PRIIIII !!!! Um barulho interrompeu-me. Sim, era um salva-vidas! Não, não era bonito! A primeira coisa que pensei foi: graças a Deus! A segunda: eu realmente quero morrer!!!! TO-DAS as pessoas estavam olhando pra mim. Sem exceção. Apontavam. Alguns riam histericamente. Mães tiravam as criancinhas da água (porque diabos isso?)... Enquanto eu ia voltando e respondendo ao interrogatório, bolinhos de gente já se formavam na areia. Um grande empurra-empurra na busca da melhor visão da cena, gritos do tipo: o que está acontecendo? quem morreu? ... A alguns metros dali... Senhor Leal: "Huahuahuahua .... que ridículo! Tem alguém se afogando!!!" ... Leal Júnior: "Huahuahua, eu sei! E é a idiota da Danielle." (...) Obrigada, querida família! O que seria de mim sem vocês...