Sexta-feira, Maio 21, 2004
COMO ESQUECER ALGUÉM
Um manual simples, rápido e eficiente.
01) Pare de pensar nessa pessoa o tempo inteiro.
02) Não fique achando que depende dela pra tudo. Antes de conhecê-la você se virava muito bem sozinho.
03) Não deixe que músicas, objetos ou lugares tragam a lembrança dela. Se sabe que pode evitá-los, evite.
04) Fica proibido imaginar se ela gosta ou não de algo, escolher presentinhos ou querer mostrar suas coisas pra ela.
05) Não conte mais nada pra ela. Aliás, é absolutamente proibido falar com ela.
06) Pare de pensar nessa pessoa o tempo inteiro.
07) Se fosse pra ter dado certo, já teria dado. Isso prova que vocês não devem ficar juntos mesmo.
08) Não interessa o que ela está fazendo agora.
09) Fique procurando defeitos inaceitáveis. Quantos mais você conseguir melhor. Você pode nunca ter notado, mas essa pessoa não é perfeita.
10) Seu objetivo é esquecê-la. Se vc lembrar dela -nem que por um milésimo de segundo - pense rapidamente em outra coisa. Melhor ainda: procure odiar essa pessoa, que é pra não lembrar mesmo.
11) Ocupe seu tempo livre. Distraia sua atenção com atividades divertidas.
12) Conheça outras pessoas. Saia de casa. Tire esse pijama.
13) Pare de pensar nessa pessoa o tempo inteiro.
14) Corte o cabelo.
15) Compre uma roupa linda que você nunca tinha coragem de usar. E use.
16) Coma muito chocolate.
17) Pare de pensar nessa pessoa o tempo inteiro.
18) Comece a fazer exercícos. Alongamento e massagens também são válidos.
19) Estude. É uma ótima oportunidade para aumentar sua notas.
20) Seja orgulhoso, não volte atrás nunca.
21) Faça uma longa viagem.
21) Não veja filmes românticos. Nem veja filmes.
22) Jogue o número dela fora. Se decorou, jogue seu telefone e celular fora, assim você não poderá ligar.
23) Jogue praga nos casais apaixonados que você encontrar. Ele trai ela.
24) Não encontre casualmente com a pessoa em questão. Se for preciso, mude de cidade.
25) Tranque todas as fotos, cartas e pequenas lembranças. Certifique-se que jogou a chave fora.
26) Incendeie todos os chaveiros (principalmente os 24hs), só pra garantir em caso de uma recaída.
27) Pare de pensar nessa pessoa o tempo inteiro.
28) Saudade não existe. Não sinta.
29) Compre outro manual. Descobri que esse aqui não funciona.
30) Nem qualquer outro. Esqueça de esquecer. É muito difícil.
Há alguns dias atrás, assisti uma palestra do jornalista Gilberto Dimenstein da Folha de S. Paulo. Desde então entrei numa crise fudida. Duas coisas pareceram ter sido ditas especialmente pra mim. A primeira foi: "se eu tivesse que deixar apenas duas cadeiras (referindo-se ao cargo de professor) seriam Artes e Filosofia." Eu não pude conter um sorriso do tamanho da Rússia.
Outro trecho resumiu o meu desespero atual: "Dentre todas as pessoas de sucesso que eu entrevistei... cantores, atores, presidentes da república, prêmios nobel... todos eles, sem exeção, gostavam do que faziam." Dessa vez não houve sorriso, apenas um esforço enorme para não deixar que as lágrimas transbordassem o cantinho do meu olho e lavassem minha face.
Por último ele disse que "os sonhos são como uma estrela. Mesmo que você nunca alcance, ali está sua orientação." Nem sorriso, nem lágrimas. O tempo naquele momento parou. A voz dele tornou-se distante e eu perdia meu olhar naquelas duas mil pessoas a minha frente enquanto voavam meus pensamentos e minhas lembranças num filme não-temporal.
Idealista e ingênua. Essa combinação permitiu-me passar horas eternas dando asas a audaciosos projetos. Utopia é pouco. Minhas idéias revolucionárias eram mais lindas que o Estado de Natureza de Locke. Eram apenas idéias de criança. Não passavam de histórias encantadas em que todos eram felizes para sempre.
Ao longo dos anos, a criança foi crescendo (bem pouquinho, é verdade hahaha) e os sonhos se diluindo em partes. A esperança e a coragem ficando pelo caminho. A cada decepção, a cada mentira, a cada aspecto monstruoso das pessoas que eu decobria, meus projetos eram jogados ao léu. Eu os perdi. E junto perdi a mim mesma. Fui esquecendo o que eu gosto. Fui me deixando bombardear pela apatia alheia até o auge, envolta em pessimismo e ceticismo. Até meu completo fim. Eu desisti. Eu não fui forte o suficiente.
A muito tempo minha estrela apagou. E eu prossigo hipnotizada com vagalumes. Onde está minha coragem de olhar pro céu? Onde está tua coragem de olhar pro céu?
Terça-feira, Maio 18, 2004
HAHAHAHAHAHAHAAAAAAAAAAAAA ESSE EH O POST MAIS MASSA DO MUNDOOOOOOOOOO!!!!!!! Nossa nossa sério sério eu to na casa cor!!!!!! pois eh!!!!!! alucinaaaaante.... o chico tá muito envergonhado, a monique muito empolgada, o fusco muito desligado! Tudo aqui é absolutamente perfeitoooooo!!!! E a gente encontrou um piá do colégio da alta soçaite e ficamos numa festinha particular!!!!!!!!!!!!!!! Cara, to muito feliz!!!!!!
Segunda-feira, Maio 10, 2004
Eu odeio carregar a cruz do eu podia ter feito melhor. Eu sempre podia ter feito melhor. E não fiz. E não faço. Invento desculpas, dramatizo empecilhos, não quero. A preguiça me corrói os poros e as tripas. Mata-me pela tristeza e desgosto. A lei da inércia é a única lei física que acredito. Quanto mais eu durmo, mais sono eu sinto.
Afogo-me em minhas lamúrias e desvontades. Em meu cansaço eterno. Em meu pessimismo que pulsa em minhas veias e exala em todas as minha ações. Eu não sou maniqueísta. Ou não quero ser. Eu empurro com a barriga não por falta de tempo. Por falta de ânimo. Por que eu não consigo separar as coisas? Por que meu descontentamento se espande por todos os lados da minha vida?
Minha boa vontade não passa de vontade. Minha má vontade gera o nada. Vai se arrastando e consumindo tudo o que me pertence, tudo o que faço. Cada vez mais o que penso vira só pensamento. E aos poucos vão sumindo na escuridão vazia do desisto. Eu podia ter feito melhor. Não fiz. Não faço. Não me importa mais pensar no que deixo de fazer e já não posso resgatar. Não interessa me esforçar em vão pelas coisas que vou perder e não poderei resgatar. Hoje poderia fazer melhor. Mas não o farei. Vou mergulhar na minha angústia. No meu quase arrependimento. Na minha crescente solidão. Na minha inércia sem fim. Desisto.
Quinta-feira, Maio 06, 2004
A garoa começa do nada. Ele vira pra ela e diz: Amor, vamos esperar embaixo dessa árvore. Eu continuo andando mais rápido. Dois segundos depois o céu desaba. Ela pára de abraçá-lo e seu olhar apaixonado tranforma-se em ódio mortal. Eu seguro o riso enquanto imagino por quanto tempo minha calcinha permaneceria encharcada. Espero pra atravessar a rua. Espero muito. Finalmente consigo... olho pra trás e vejo a raiva dela e o arrendimento dele. Eles estavam tão perto, deveriam sim ter corrido um pouquinho. Tsc tsc... é o amor.
Tropecei 12 vezes nos últimos 8 minutos. Os pensamentos perturbam minha mente e atrapalham meus pés. De novo. As pessoas devem estar achar que eu to bêbada. Ou que eu sou monga. Eu sou monga. .. Podiam disfarçar esse risinho no rosto. Até parece que nunca tropeçaram. Ela podia ter me falado. Ela devia ter me falado. Bom, talvez tropecem mas não tantas vezes seguidas. Devo admitir que caí demais. Por que será que não me disse? Eu tinha direito de saber.
Ela teve medo de mim. Ela não confiou em mim. Ela teve receio de como eu pudesse reagir. A culpa é das ruas, que são tortas e esburacadas. Eu queria que ela confiasse em mim em todas as situações. Devo ter sido uma péssima amiga. Devo ter sido cruel ou não ter respeitado seu jeito alguma vez antes. Pode ser culpa do sapato, mas essa possibilidade é mínima, as calçadas são tortas: isso faz bem mais sentido.
As pessoas usam sapato para não machucar os pés. Mas tropeçando dessa maneira, qual a função do sapato? É só mais um peso pro meu corpo carregar. Pelo menos mantém meus pés quentes. Talvez ela não quisesse que eu ficasse triste. Se é pra aquecer tudo bem, porque está muito frio. Mas acho que não vai chover não. Ela conseguiu me deixar ainda mais triste. Devo mesmo ter feito algo horrível para perder sua confiança.
Ai! Dessa vez torci o pé. Tudo que eu precisava. Vou sentar um pouco. Não é a calçada torta. Eu não ia brigar com ela. Não é o sapato. Eu não ia ficar triste. Sou eu. Eu entenderia. Estou distraída. Ela podia ter me falado. Cansei.
Terça-feira, Maio 04, 2004
Põe a mão na maçaneta, mas não gira. Permanece ali por alguns segundos infinitos. Recua uns passos, olha a porta de madeira clara e o número enferrujado. Não há ninguém no corredor. A planta murcha ao canto não combina com o tapete vinho rasgado e imundo. Se aproxima novamente. Escorrega os dedos lentamente sob a porta. Chega ainda mais perto, encosta o rosto e fecha os olhos. Não sei se ouviu alguma coisa. Abaixa e senta-se. Apóia o cotovelo sobre os joelhos, passa a mão nos cabelos e chora. Chora muito. Pára. Levanta rápido. Leva a mão na boca, beija e delicadamente a encosta na porta. Vira e caminha, quase correndo, eu diria. Não olha pra trás, não volta. Seu corpo é encontrado em pedaços, na praça em frente, três dias depois.