Quarta-feira, Junho 23, 2004
OFIOS DO OSSÍCIO
Quem nunca brincou de escritóriozinho? De dizer "Boa Tarde, Senhor!" ou "Telefone para contato?" ... pois é, não é com a mesma disposição que se fala isso milhares de vezes ao dia, sem desfazer aquele sorrizinho falso, mas, devo confessar que eu ADORO!
Como existem pessoas bizarras nesse mundo... como é engraçado!
À propósito, se vc comprou um produto com defeito ou está tendo que pagar uma taxa que não deve, pagar duas vezes a mesma coisa, comprou um merda de celular que não funciona, a esteira de ginástica não tem botão de ligar: é direto na tomada e e você não consegue subir sem cair, não consegue cancelar o contrato, e blábláblá.... fale comigo!
Ps: Aqui tratamos apenas de relação de consumo. Consumidor e fornecedor. Aqui é um órgão administrativo, só trabalhamos com provas documentais; então o senhor deve se dirigir ao juizado especial. É só virar aqui a direita e andar umas quatro quadras. É pertinho da praça do expedicionário (a do avião, sabe?). Lá eles vão resolver pro senhor.
Segunda-feira, Junho 14, 2004
Pra cada carro que passa ele sai latindo super alto e correndo atrás o mais rápido que pode. Vai acabar sendo atropelado desse jeito... Já tentei avisá-lo de que ele não é um cachorro, mas desde que largou o emprego, não me escuta mais.
Abre a porta de casa. Joga a mala na poltrona. Tranca e põe a chave na mesinha. Acende a luz e vê uma cabeça pendurada no lustre. Dois segundos de silêncio até que o seu coração volta a bater, só que muito, muito rápido. Leva a mão ao rosto e grita até sua garganta arder e não existir mais ar em seu corpo. Só então consegue chorar. Fecha os olhos, mas continua vendo a mesma cena. E continuará a vê-la durante os próximos 23 anos de vida que lhe restam. Ela foi o seu primeiro e único amor.
Domingo, Junho 13, 2004
Eu não gosto de você. O seu cheiro me dá ânsia. A tua presença me perturba, teus gestos me envergonham, tua aparência me enoja. Eu queria que você morresse. Aos poucos, pra sofrer bastante. Não quero ver essa tua boca podre nem esse teu olhar maldito. Quero que você tenha pena de si. Quero que se mate. Que sofra por não agüentar sofrer, que chore por não conseguir chorar. Engula sua própria língua e arranque suas mãos. Sai daqui. Saia, vá embora. Estou a ponto de vomitar. Te odeio. Eu quero que você morra. Você é uma vergonha. Não volte mais.
Olhava as bolhas no pé e sorria. Limpava o sangue com satisfação. Um sacrifício necessário. Cumprira o que havia desejado. A dor forte e latejante era apenas mais um motivo para sentir-se bem. Sentia-se bem. Continuava vendo o sangue escorrer. Respirava fundo. Não estava com medo. Sentia apenas um alívio. Tudo iria dar certo. Valera a pena.
Quinta-feira, Junho 10, 2004
O vento frio cortante fazia cair as folhas laranjas na trilha sem fim. Com passos lentos continuava, não esperava chegar a nenhum lugar. Nunca estivera ali antes. Não tinha expectativas quanto ao que estaria à frente. Mas também não sentia vontade de voltar.
O sol fazia as copas das árvores refletirem uma luz intensa que contrastava com o céu muito azul. Não estava com fome. Nem com medo, nem nada. Mas sentia uma grande vontade de chorar.
Encontrou um grilo. Tão pequenininho, escondido nas milhares de folhas secas e neve que cobriam a larga trilha. Abaixou-se e pegou-o com cuidado. Arrancou a sua cabecinha. Comeu o resto. Andou mais alguns metros e vomitou. O caminho ia estreitando-se gradativamente e o sol começava a incomodar.
O rosto estava ardendo. Era bom quando vinha o vento gelado de novo. Aliviava essa sensação desconfortável e ainda fazia as folhas girarem no ar. Era divertido. Chegara agora a uma lagoa. Já estava escurecendo quando se levantou e pulou. Escolheu ficar ali se congelando aos poucos. Dentro de alguns minutos não precisaria voltar nunca mais.
Sexta-feira, Junho 04, 2004
Ele gosta dos o que. Ela gosta dos porquês. Ele gosta de esquecer. Ela gosta de lembrar. Ele vive o presente. Ela, o passado. Ele se preocupa com o que é. Ela com o que deveria ser. Ele é de exatas e ela é de humanas. Ele é pragmático, ela complicada. Ele adia, ela precipita. Ele ri e ela chora. Não tente entender. Não tente mudar. A luz é aquilo que tem o poder de transformar as coisas opacas em transparentes.
EU SINTO SAUDADES
Do cheiro enjoativo de café toda manhã. Do pátio, que já foi vermelho e nele já ralei o joelho trocentas vezes. Dos toldos azuis, que eu continuo achando que não combinam com nada. Do pão-de-queijo. Da caixa d'água, que eu jurava que era uma torre secreta cheia de espiões. Do relógio, que eu tinha certeza que ia cair bem na minha cabeça. Do sorvete de leite condensado. Do bosque, que eu tanto visitei para pegar latifoliadas.
Das escadas que eu subi literalmente mais de um milhão de vezes. Dos corredores secretos do auditório. Da grade azul do pipoqueiro. Do salgadinho de bacon. Da pipoteca isopor com sal. Da minha pipoteca doce que eu comprava escondido! Saudades do banheiro do ginásio que se arrastasse o banco dava pra ver o banheiro dos meninos. Da copa, que eu ia pedir pano. Saudades das aulas de educação física? Pois é, quem diria...
Saudades da capela. Ai que saudades da capela. Do esconderijo da capela. Saudades do áudio-visual e dos teatrinhos que a gente apresentou. Saudades da sala de artes. Das aulas de arte. Da sala de dança. Nossa, daquela sala do terror que fica ali antes dos ônibus sabe? Boatos que tem uma cabeça lá. Saudades do antigo campão de areia que virou quadra de borracha. Como eu caí na quadra de borracha. Saudades da pastoral. Saudades do Champagnat e da Maria. Das filas da cantina. Das janelinhas da cantina.
Dos hexágonos do pátio externo. Saudades da sala de reunião da comissão de formatura. Do SIS! Da pracinha do Marcelino. Das pombas. Do gambá. Do laboratório de matemática (alguém lembra?). Dos recreios. De não alcançar o bebedouro. Saudade do meu laboratório de informática. Da portaria. Da grade até a portaria. Daquela curva ali antes da valeta onde o céu é perfeito. Do prédinho da pré-escola. Do estacionamento. Da livraria. Do cachorro-quente. Da mecanografia. Da amada biblioteca!
Sinto saudades de cada parte daquele colégio. Mas não é só falta do colégio. É das pessoas mesmo. Joca. Tio do castelinho. Tia Iva. Senhor Avante. Dércio. Dona Ana e as mulheres mau-humoradas. Tias da limpeza. Inspetores chatos. Velhinho do recreio. Dirlei. Irmão Florentino. Beth. Tia Dirce. Rosemeri. Marília. Aqui quem vux fala é Marcelu Pinheeeiru. Tio Edson. Tio Pig. Cláudia. Meus professores, mestres, ídolos. Meus amigos. Minha história.