Quarta-feira, Junho 29, 2005
Chegou em casa, abriu a geladeira, mas não pegou nada. Não estava com fome. Colocou os filhos pra dormir e contou-lhes uma história. Ela sempre inventava na hora, não gostava dos livros prontos e sem graça. Deu um beijo em cada um e foi até a sala. Terminou o relatório, molhou as flores, desligou a tv e foi para o quarto.
O marido chegou bem mais tarde. Preparou um sanduíche enorme e tomou duas latinhas de refrigerante. Conferiu se todas as portas estavam trancadas e se os filhos estavam dormindo. Abriu a porta do quarto, acendeu a luz e viu uma cadeira caída no chão. Acima dela, sua esposa, enforcada. O rosto arranhado, a roupa suja de vômito, bolhas de queimadura nos pés, sangue escorrendo pelo nariz.
Ele tirou os sapatos, colocou o pijama, deitou-se e dormiu.
-Sempre que sinto vontade de estudar, deito e espero a vontade passar.-
-Fome é ruim. Vontade de comer é muito, muito pior.-
SALA 101
É bem provável que você saiba que eu não suporto seringa e sangue. Pode ser que você já tenha visto eu chorar ou desmaiar por causa disso. Ou pode ser que você tenha me visto na frente de uma seringa antes de um exame e a situação absurda que isso proporciona.
Mas enfim... Medo. Eu tenho medo de elevador, de altura, de alguns bichos, de morrer, de brinquedos de parques de diversão, inúmeras coisas. Isso são medos. E têm intensidades diferentes. Não gosto, não me sinto bem, procuro evitá-los, mas são suportáveis.
Agora, tirar sangue ou injeção, não dá. Não mesmo. É a minha sala 101. É um pavor, uma fobia horrível, uma doença. Só de pensar já começo a passar mal. Não é frecura. Nem um medo qualquer. É algo que você nunca vai entender.
Fiz a endoscopia. Sem anestesia. Não é muito agradável, na verdade. Estou bem. Estou feliz.
leitura complementar: no arquivo, 28 de agosto de 2003.
Sexta-feira, Junho 24, 2005
-Se todas as coisas do mundo fossem da mesma cor, todas as pessoas seriam cegas.-
Tenho vários textos aqui, mas estou doente e com muita preguiça de postá-los. Viajo amanhã mas volto segunda. Semana que vem não terei aulas então terei tempo e empenho de sobra pra ficar atualizando isso aqui. Desde já agradeço pela compreensão.
"Obrigado pela preferência, volte sempre". (Pacotes de pão)
Terça-feira, Junho 21, 2005
Sozinha em casa. O silêncio absoluto, as luzes apagadas. Ficou assim, deitada no chão do banheiro sentindo o piso frio. Ninguém sabe por quanto tempo. A julgar pela fome da guria, muito tempo.
Ela não sentia vontade de abrir os olhos, nem levantar, nem pensar. Mas pensava. Não conseguia parar de pensar. Há dias não dormia, há muito não comia. Só pensava. Cansou.
Levantou com dificuldade, cambaleou até o quintal, pegou uma foice e num golpe supremo tentou cortar sua cabeça fora. Não conseguiu, ficou pela metade. Tive a impressão de que ela ainda podia pensar enquanto seu corpo caía bem lento na terra molhada coberta de vermes.
Terça-feira, Junho 07, 2005
BARQUINHO
Minhas angústias se repetem de tempos em tempos como um ciclo. Sempre desencadeadas por uma desilusão inesperada. Sempre com acúmulo de ressentimentos passados. É como um redemoinho. É um barquinho solto numa banheira que alguém destampou o ralo.
Sou eu. Sou eu perdida, sou eu insegura, sou eu ansiosa, sou eu triste. Sou eu cheia de perguntas sem respostas. Sou eu, simplesmente. De tempos em tempos, assim.
- Pegue as tuas coisas e saia daqui! Agora!
- A casa é minha.
- Ah, é verdade. Então eu vou embora! Vou ficar lá na cozinha. Me chama quando começar a novela?
Corria os olhos nas vitrines e suspirava. Imaginava-se comprando tudo aquilo enquanto passava a mão nos cabelos grisalhos e sujos. Num momento de empolgação colocou as mãos abertas no vidro e a moça elegante que gargalhava com as outras fez um sinal para que fosse embora. Era sempre assim.
Ela continuou andando... Ajeitou os trapos imundos no corpo como se fossem um belo vestido de festa e subiu na ponta dos pés, deixando à mostra as unhas enormes, amarelas, a pele manchada. Desfilou assim, cheia de pose e ar superior, durante as quadras seguintes.
Entrou num bar, virou uma pinga fajuta e pendurou na conta. Podia pagar fiado porque o dono do bar é o pai da filha mais velha. Pelo menos ele acha que é. Viu no reflexo do copo seu rosto velho. Um ranho seco escorrido. Os poucos dentes que restavam. Apesar disso, bonita. Ela nunca conseguiu ver isso, mas era bonita. Saiu de lá com um andar pesado, os ombros caídos, falando alto com ninguém.
Andou mais um pouco e encontrou zézinho. É o seu pequeno. Barrigudinho, melequento, olhos brilhantes. À ela entregou umas poucas moedinhas. O movimento tava ruim e além disso os carros agora tem vidros pretos, sempre fechados. Ela reclamou e lhe meteu a mão na cara. A boca começou a sangrar e ele disse: "Vou conseguiur mais da próxima vez, mamãe. Eu prometo! ". E voltou ao sinaleiro sorrindo, saltitante. Lá estava o Pocotó. Um vira-lata espertinho e magricela que brincava com ele. Os irmãos não brincavam com ele nunca. Só o Pocotó.
Ela já estava distante, no bar. Comprou uma garrafa dessa vez. Foi andando novamente pela mesma rua... Correndo os olhos nas vitrines e suspirando.