Perdidos No Obuscuro Vão Espaço/Tempo Em Indeterminável Lugar Da Eternidade Jazem Meus Inconstantes Pensamentos Envoltos Em Putrefatas Lamentações.

Quarta-feira, Junho 29, 2005

Chegou em casa, abriu a geladeira, mas não pegou nada. Não estava com fome. Colocou os filhos pra dormir e contou-lhes uma história. Ela sempre inventava na hora, não gostava dos livros prontos e sem graça. Deu um beijo em cada um e foi até a sala. Terminou o relatório, molhou as flores, desligou a tv e foi para o quarto.

O marido chegou bem mais tarde. Preparou um sanduíche enorme e tomou duas latinhas de refrigerante. Conferiu se todas as portas estavam trancadas e se os filhos estavam dormindo. Abriu a porta do quarto, acendeu a luz e viu uma cadeira caída no chão. Acima dela, sua esposa, enforcada. O rosto arranhado, a roupa suja de vômito, bolhas de queimadura nos pés, sangue escorrendo pelo nariz.

Ele tirou os sapatos, colocou o pijama, deitou-se e dormiu.

Danielle Leal, às 20:17
Estorve:

-Sempre que sinto vontade de estudar, deito e espero a vontade passar.-
-Fome é ruim. Vontade de comer é muito, muito pior.-

SALA 101

É bem provável que você saiba que eu não suporto seringa e sangue. Pode ser que você já tenha visto eu chorar ou desmaiar por causa disso. Ou pode ser que você tenha me visto na frente de uma seringa antes de um exame e a situação absurda que isso proporciona.

Mas enfim... Medo. Eu tenho medo de elevador, de altura, de alguns bichos, de morrer, de brinquedos de parques de diversão, inúmeras coisas. Isso são medos. E têm intensidades diferentes. Não gosto, não me sinto bem, procuro evitá-los, mas são suportáveis.

Agora, tirar sangue ou injeção, não dá. Não mesmo. É a minha sala 101. É um pavor, uma fobia horrível, uma doença. Só de pensar já começo a passar mal. Não é frecura. Nem um medo qualquer. É algo que você nunca vai entender.

Fiz a endoscopia. Sem anestesia. Não é muito agradável, na verdade. Estou bem. Estou feliz.

leitura complementar: no arquivo, 28 de agosto de 2003.

Danielle Leal, às 19:39
Estorve:

Sexta-feira, Junho 24, 2005

-Se todas as coisas do mundo fossem da mesma cor, todas as pessoas seriam cegas.-

Tenho vários textos aqui, mas estou doente e com muita preguiça de postá-los. Viajo amanhã mas volto segunda. Semana que vem não terei aulas então terei tempo e empenho de sobra pra ficar atualizando isso aqui. Desde já agradeço pela compreensão.

"Obrigado pela preferência, volte sempre". (Pacotes de pão)

Danielle Leal, às 23:48
Estorve:

Terça-feira, Junho 21, 2005

Sozinha em casa. O silêncio absoluto, as luzes apagadas. Ficou assim, deitada no chão do banheiro sentindo o piso frio. Ninguém sabe por quanto tempo. A julgar pela fome da guria, muito tempo.

Ela não sentia vontade de abrir os olhos, nem levantar, nem pensar. Mas pensava. Não conseguia parar de pensar. Há dias não dormia, há muito não comia. Só pensava. Cansou.

Levantou com dificuldade, cambaleou até o quintal, pegou uma foice e num golpe supremo tentou cortar sua cabeça fora. Não conseguiu, ficou pela metade. Tive a impressão de que ela ainda podia pensar enquanto seu corpo caía bem lento na terra molhada coberta de vermes.

Danielle Leal, às 15:10
Estorve:

Terça-feira, Junho 07, 2005

BARQUINHO

Minhas angústias se repetem de tempos em tempos como um ciclo. Sempre desencadeadas por uma desilusão inesperada. Sempre com acúmulo de ressentimentos passados. É como um redemoinho. É um barquinho solto numa banheira que alguém destampou o ralo.

Sou eu. Sou eu perdida, sou eu insegura, sou eu ansiosa, sou eu triste. Sou eu cheia de perguntas sem respostas. Sou eu, simplesmente. De tempos em tempos, assim.

Danielle Leal, às 19:04
Estorve:

- Pegue as tuas coisas e saia daqui! Agora!
- A casa é minha.
- Ah, é verdade. Então eu vou embora! Vou ficar lá na cozinha. Me chama quando começar a novela?

Danielle Leal, às 18:59
Estorve:

Corria os olhos nas vitrines e suspirava. Imaginava-se comprando tudo aquilo enquanto passava a mão nos cabelos grisalhos e sujos. Num momento de empolgação colocou as mãos abertas no vidro e a moça elegante que gargalhava com as outras fez um sinal para que fosse embora. Era sempre assim.

Ela continuou andando... Ajeitou os trapos imundos no corpo como se fossem um belo vestido de festa e subiu na ponta dos pés, deixando à mostra as unhas enormes, amarelas, a pele manchada. Desfilou assim, cheia de pose e ar superior, durante as quadras seguintes.

Entrou num bar, virou uma pinga fajuta e pendurou na conta. Podia pagar fiado porque o dono do bar é o pai da filha mais velha. Pelo menos ele acha que é. Viu no reflexo do copo seu rosto velho. Um ranho seco escorrido. Os poucos dentes que restavam. Apesar disso, bonita. Ela nunca conseguiu ver isso, mas era bonita. Saiu de lá com um andar pesado, os ombros caídos, falando alto com ninguém.

Andou mais um pouco e encontrou zézinho. É o seu pequeno. Barrigudinho, melequento, olhos brilhantes. À ela entregou umas poucas moedinhas. O movimento tava ruim e além disso os carros agora tem vidros pretos, sempre fechados. Ela reclamou e lhe meteu a mão na cara. A boca começou a sangrar e ele disse: "Vou conseguiur mais da próxima vez, mamãe. Eu prometo! ". E voltou ao sinaleiro sorrindo, saltitante. Lá estava o Pocotó. Um vira-lata espertinho e magricela que brincava com ele. Os irmãos não brincavam com ele nunca. Só o Pocotó.

Ela já estava distante, no bar. Comprou uma garrafa dessa vez. Foi andando novamente pela mesma rua... Correndo os olhos nas vitrines e suspirando.

Danielle Leal, às 18:57
Estorve:

   


Danielle Leal. Desagradável. Perfeccionista. Atléticana. Idealista. Depressiva. Chata. Nostalgica. Melancólica. Ansiosa. Estressada. Inteligente. Eufórica. Irritante. Confusa. Elétrica. Sem noção. Socialista. Odeia educação física e jogos de futebol pela TV. Não suporta viajar com a janela aberta. Ama cinema, teatro, dança e filosofia. Vai pra escola exclusivamente para assistir aulas de história. Gosta de geopolítica e religião. Odeia química. É perdidamente apaixonada por livros e discos. Adora descascar mimosas. Não gosta de Mc Donald's. Passa horas dublando programas com a Tv sem som. É fanática por gibis. Não nasceu pra trabalhar, nem para seguir horários. Impaciente. Ama dias bem frios com céu azul e sol. Odeia falar mil vezes a mesma coisa. Adora ser acordada por um telefonema. Odeia ser acordada por um arroto de um de seus irmãos. Tem três cachorros. Adora leite gelado. Desorganizada. Passa mal até com o cheiro de café. Pessimista. Sofre de insônia, enxaqueca, dor nas costas e sincose vaso-vagal. Não sabe jogar damas. Mas joga xadrez. Adora sorvete de flocos. Descobriu que não podia se teletransportar aos oito anos. Não anda de carro sem trancar a porta. E colocar o cinto de segurança. Não dorme sem tomar um nescau antes. Adora vagonite. Gosta de coalhada sem açúcar e sem canela. Aliás, odeia canela. Não recomenda tênis da bibi. Tem um dente postiço. Tem pavor de avião. Odeia tocador de cd sem pilha. Era a She-Ra. Sonho só se for de goiabada. Adora cartas. Odeia pacotes de salgadinho vazios. Dramática. Odeia lombadas. Tempera salada só com vinagre. Não tem nada contra os dias nublados. Odeia fila da cantina. Ainda não conseguiu decorar qual é o lado direito e qual o esquerdo. Conserva o hábito de falar sozinha até hoje. Depois continua - não consegue ficar muito tempo fazendo a mesma coisa.





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Obrigado pela preferência. Volte sempre.

Agradecimento:
a minha querida prima Raquel, por me agüentar durante toda a sua vida hahaha e por ter feito esse blog pra anta aqui que mal consegue ligar o computador. Muitíssimo obrigada!


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